Amores múltiplos

Dou por mim a imaginar o sabor desse doce de fel. Nada parece ter ficado resolvido e ao mesmo tempo nada ficou por resolver… Parece um misto estranho que me invade e atormenta este desejo inquieto cheio de vários rostos, de diferentes nomes. Este lugar vazio e diversas vezes preenchido que nunca teve como se transformar… Cheio de tantas cores. Cheio apenas desses lugares. Cada um. Cada qual. Toda eu. Isto apenas porque acordei dum sonho inaugural do qual não podia sair, porque demasiado entranhado em mim. Esse sonho tão real que me fez duvidar daquele momento em que acordei. Onde não queria mesmo acordar.

Não sei se foi esse o motor da minha combustão… Ou apenas uma memória viva associada, como sempre, a esses momentos cíclicos da nostalgia. Depois disso é sempre o vazio da incerteza. Olhar para um sorriso familiar e viver o passado no presente. Admitir que os nossos lugares mudaram e que o tempo que dedicamos um ao outro não existe, que aquele com quem projetamos o futuro é um outro. Que esse outro é um lugar incerto mas pleno de amor. E que esse passado é algo que ficou arrumado num outro clima da nossa própria existência.

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Jogos de ritmo

Se não puder explicar, pelo menos que possa escrever que não é malícia nem maldade. Também não é inocência nem falta de amor. São momentos construídos de espontâneo prazer, que não podem ser explicados ainda que sejam premeditados.

Quase sempre quando são imaginados não são concretizados e todas as vezes que acontecem, nascem no e do fruto duma frustração sem igual. Falta de acolhimento num momento urgente. É sempre a urgência que dita a velocidade com a qual se caminham a passos largos os dois pés juntos.

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De mim

O que podem dizer de mim todas as histórias infinitas que tento inventar, nas quais espero reinventar-me e ganhar uma nova vida. São elas a tradução duma frustração que ganho, dum momento que se estende e ao qual chamo de vida? Perdi-me dentro da casa à procura do mundo, pensando que os horizontes eram as paredes brancas que me embarcavam? Ou saí eu por aí afora, distraída e encontrei-me por acaso comigo mesma, entre duas taças de vinho e alguns olhares trocados. Um pouco de rímel e um toque de bâton. Esperava eu que um encontro causado comigo mesma fosse um lugar no qual finalmente poderia encontrar-me e dizer-me, como foi o caminho até hoje, sentir-me livre para mudar de estrada se esta me parece curta.

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Na cave dum bar de jazz

Repentinamente, logo depois dum colapso entre um concerto desejado durante meses (ou anos, desde que o conheço), e uma abstinência – decidi comprar um novo bilhete. Este para assistir à performance dum artista até então desconhecido – e mesmo agora, já me esqueci do nome, para dizer a verdade. O músico em questão é vizinho do vizinho que mora lá no país dele. Fomos cedo porque disseram-nos que a sala era pequena. E depois dum almoço na cantina ao meio-dia, é claro que já era tarde para jantares românticos. Comemos um hamburger no Paris New York, para dar o tom de mellow jazz que se anunciava para mais tarde…

E, ainda bem que chegámos cedo. A sala meio exígua, dispunha duma mini plateia, rodeada de mesas encostadas à parede. Ocupámos logo o lugar num sofá velho e desconfortável, ao lado dum casal, já batido nestes serões. Notava-se, porque tinham o melhor lugar. Estavam sentados à minha esquerda. Durante escassos minutos um intruso apareceu para se sentar no espaço reservado à intimidade de cada casal. Continuar lendo “Na cave dum bar de jazz”

Um limãozinho cada dia, nem sabe o bem que lhe fazia

Eu sei que estás aí num dia de chuva, mesmo com um sol radiante lá fora, dentro de ti chove. Talvez seja a chuva que tanto esperavas, aquela que vai renovar-te, novamente. Por dentro. Deixa chover, mas não chores. Ou chora, se te alivia, mas sem lágrimas. Não sou pela teoria dos sempre felizes, mas conheço a força que damos à força. Alimenta em ti aquela que seja a mais criativa, com a qual consegues sempre mudar. O mais importante  é não duvidar que essa força possa existir.

Conheço o mundo industrializado no qual vivemos, sempre a exigir mais. Mais beleza, mais saúde, mais firmeza, mais inteligência – sobretudo mais aparência. A felicidade não deve ser esse rótulo pré-formatado: essa ciência dos felizes. Parece que se mostra em todos os lugares, que floresce em todos os cantos e sobretudo que invade em força todos os ecrãs – da televisão ao telemóvel, passando pelas revistas, pelas publicidades, por todos os lugares onde possamos meter os olhos. Passa-se sobretudo na repressão, no segredo, entre quatro paredes escondidas, onde sempre queremos guardar esse lado negro da nossa tristeza. Escondê-la.

Não  é por isso que quero falar.

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Viajar entre mundos


Viajar tornou-se quase uma moda, como escrever, fotografar ou amar cozinhar. De todos tenho algum pouco de vontade, mas cada um em medidas diferentes. Quando se diz que alguém tem aquele bicho viajante que trabalha por dentro, não sei exactamente ao que é que se refere. Até porque é algo que já ouvi, mas não é a viagem que me atraí é o sair e o voltar. Não é o durante, até porque isso causa sempre arrepios na barriga.

Tal como o tempo, viajar faz parte daqueles momentos em que é necessário alguma organização, mesmo que amanhã decida calçar as botas e fazer-me à estrada, nada é possível exactamente se me for embora descalça. Então para qualquer coisa é preciso um mínimo de organização. Ora é algo estranho para quem se encontra no meio de bagunças -como eu.

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