De mim

O que podem dizer de mim todas as histórias infinitas que tento inventar, nas quais espero reinventar-me e ganhar uma nova vida. São elas a tradução duma frustração que ganho, dum momento que se estende e ao qual chamo de vida? Perdi-me dentro da casa à procura do mundo, pensando que os horizontes eram as paredes brancas que me embarcavam? Ou saí eu por aí afora, distraída e encontrei-me por acaso comigo mesma, entre duas taças de vinho e alguns olhares trocados. Um pouco de rímel e um toque de bâton. Esperava eu que um encontro causado comigo mesma fosse um lugar no qual finalmente poderia encontrar-me e dizer-me, como foi o caminho até hoje, sentir-me livre para mudar de estrada se esta me parece curta.

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Fugaz encontro no metro

Um fim de dia como um outro. Mas hoje estava mais cansada do que ontem. Precisava dum lugar para me sentar no metro. Vou entrar nesta porta, parece-me que há um lugar… Foi inesperadamente dentro do metro, este olhar que penetrava mais do que a proximidade à qual estávamos sentados. Existia uma curiosidade que pairava entre nós. Continuar lendo “Fugaz encontro no metro”

IV – Nem às paredes confesso

Confesso-me feliz quando vejo que seguimos juntos como dois cúmplices no metro. Diríamos duas pessoas que conversam abertamente e sem pudor depois de longos anos de intimidade.

De nada disso se tratava por tanto, mas a nossa proximidade era evidente.

O meu sorriso era traidor e a minha vontade de romper as regras era grande. Grande mas não desmesurada. Fiquei a olhar-te, enquanto imaginava as letras que te escrevo hoje. Continuar lendo “IV – Nem às paredes confesso”

II – Nem às paredes confesso

Quando saíste com o teu casaco negro fazias adivinhar o teu porte de natureza pequena no teu jeans tão bem repassado como a tua camisa, alinhados no teu lenço. Senti-me grande ao teu lado. E acredita que não era isso que procurava. Procurava mais poder ser protegida que exposta ao meu tamanho e ao meu desajeito.

A saia preta já me parecia curta e ainda assim as botas deveriam ter sido trocadas por algo mais elegante, como tu. Mas o conforto não me deu asas a que essa sedução pudesse ter lugar em tais circunstâncias.

Acredita que me fizeste medo. Não o suficiente, depois de tantas ilusões que criei. Mas o necessário para que deixasse de te encontrar – para me encontrar. Continuar lendo “II – Nem às paredes confesso”

Um limãozinho cada dia, nem sabe o bem que lhe fazia

Eu sei que estás aí num dia de chuva, mesmo com um sol radiante lá fora, dentro de ti chove. Talvez seja a chuva que tanto esperavas, aquela que vai renovar-te, novamente. Por dentro. Deixa chover, mas não chores. Ou chora, se te alivia, mas sem lágrimas. Não sou pela teoria dos sempre felizes, mas conheço a força que damos à força. Alimenta em ti aquela que seja a mais criativa, com a qual consegues sempre mudar. O mais importante  é não duvidar que essa força possa existir.

Conheço o mundo industrializado no qual vivemos, sempre a exigir mais. Mais beleza, mais saúde, mais firmeza, mais inteligência – sobretudo mais aparência. A felicidade não deve ser esse rótulo pré-formatado: essa ciência dos felizes. Parece que se mostra em todos os lugares, que floresce em todos os cantos e sobretudo que invade em força todos os ecrãs – da televisão ao telemóvel, passando pelas revistas, pelas publicidades, por todos os lugares onde possamos meter os olhos. Passa-se sobretudo na repressão, no segredo, entre quatro paredes escondidas, onde sempre queremos guardar esse lado negro da nossa tristeza. Escondê-la.

Não  é por isso que quero falar.

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Inspirações

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Imagem Editada * Ryan McGuire

 

 

Como a raiva cria energia

Acabou de sair « Demolition » um filme de Jean-Marc Vallée. O plano quase ideal para sábado à noite. Sem prever, aventurei-me. Li rapidamente a descrição do filme, sem prestar atenção ao título e ao resumo. Não costumo ver os vídeos de anúncio, para não criar expectativas inesperadas… E lá fomos nós. Não vou contar a história, mas aconselho que passem vê-lo!

Deixei-me levar neste sentimento de destruição entre uma procura de si mesmo, rodeado de todos os outros. Na descoberta duma nova pessoa. Aquele novo eu, que procura saber o que sente. Não podia sentir-me mais próxima pelo número de cartas que trocam, pela forma de liberdade que a escrita lhe(s) procura. Continuar lendo “Como a raiva cria energia”

Livro meu, livro meu, quem é mais medrosa do que eu?

Tinha dezasseis anos e escrevi de enfilada aquilo que deveria ser um livro. O livro para um concurso literário, a professora de português estava contente quando me falou nisso. Já podia escrever no computador, mas já era apegada às canetas e ao papel. Lembro-me do molho de folhas amarrotas que lhe dava cada semana. Era preciso escrever cinquenta páginas A4. Dito assim, parece quase nada. Mas para mim parecia-me um infinito, ao mesmo tempo sentia-me presa à ideia de não ter liberdade.

Esqueci-me rapidamente o resto. De tudo. Passei horas dentro daquela tinta, Continuar lendo “Livro meu, livro meu, quem é mais medrosa do que eu?”

Uma paixão às cores

Ainda acredito no amor ? Ou alguma vez acreditei naquilo que deveria ser o amor como eu tinha imaginado ?

É o assunto mais rodado de todo o mundo, fala-se em todas as línguas e interroga-se em todas as culturas. Não sei como é ensinado, nem se alguém chegou a aprendê-lo de facto. Dei-me de caras com ele – desde sempre. Não demorou muito, sempre acreditei que era para sempre. Sim, um amor de sempre. Para sempre. Logo, agora. Não importa.

Ainda não tinha lido a história com a qual queria terminar os meus dias, entre fósforos ardentes, como em «Água para Chocolate», mas sabia já desde então, que seria assim. Do fundo mais profundo que eu tivesse. O problema é que podia durar pouco tempo. Mas quero explicar que não muda o tamanho. Era verdadeiro quando era intenso, era verdadeiro quando era doente, da mesma forma que era verdadeiro quando era incerto. O amor ganhou várias formas, caras, nomes. Teve muitos lugares, mas morou sempre em mim. Quando tentei separar-me dele, acabei por me enredar em paixões que elas nem sempre eram de natureza pura. O meu amor também é impuro, não acredito demais em plenitude. Mas as paixões podem rapidamente tornar-se um vício e logo se tornam montanhas russas cheias de altos e baixos. É preciso não ter vertigens para se deixar embriagar em paixões desse tamanho. Continuar lendo “Uma paixão às cores”

O tempo, esse enigma

O tempo e as crónicas da vida quotidiana cruzam-se e entrelaçam-se, às vezes criam nós. Daqueles que não se desfazem, não são nós, como tu e eu ou vocês e eu. São outros. Piores. O enigma do tempo é saber viver com ele sem que ele viva por cima de nós, aceitá-lo. Sinceramente eu tenho maus hábitos e  esqueço-me de que o tempo existe, lembro-me quando tenho sono e cada vez que vejo que sou obrigada a cumprir horários e horas. Sempre que tento organizar-me lembro-me do tempo, de outra forma passaria bem sem ele, obrigada. O tempo acumula-se, transforma-se. Não se ganha e perde-se sem parar!

Não sou uma grande noctambula e se me aborreço posso adormecer em qualquer lugar. Se tiver de trabalhar o meu cérebro faz das suas e desliga pelas dez da noite, mas agora… quando se trata de dar asas à minha imaginação o problema é conectá-la com a realidade. Porque ela não pára dia ou noite. Dá-me sonhos todos os dias, fantasmas noites a fim e ainda me deixa ficar aqui, à uma da manhã passada a escrever sobre o próprio tempo. Não é algo comum, acreditem. Porque dado o ritmo citadino sou obrigada, pelo senhor tempo, a dormir cedo e a escrever pela manhã. Não acredito que a criatividade seja mais pura, mas normalmente escrevo menos erros porque tenho mais atenção.

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