O eterno não era para sempre

Pensei que o silêncio fosse perene, também pensei que falar fosse bom. Os dois devem ser verdadeiros sem portanto serem compatíveis… Simultâneos, momentâneos. Vou então utilizar deste momento para liberar a única coisa que tenho – as minhas palavras. São apenas minhas, não podem representar mais do que aquilo que sinto.

O espanto e a esperança de voltar a ter um contacto fora dum contracto institucional, duma obrigação forçada a um encontro profissional, dois momentos que se confrontavam ainda que timidamente. Porque tinhas passado a um plano do esquecimento, sobre um contracto comigo mesma em aceitar que o ponto final tinha sido demasiado rude, não tinha espaços nem tempos para serem escritas novas vírgulas.

Continuar lendo “O eterno não era para sempre”

Amores múltiplos

Dou por mim a imaginar o sabor desse doce de fel. Nada parece ter ficado resolvido e ao mesmo tempo nada ficou por resolver… Parece um misto estranho que me invade e atormenta este desejo inquieto cheio de vários rostos, de diferentes nomes. Este lugar vazio e diversas vezes preenchido que nunca teve como se transformar… Cheio de tantas cores. Cheio apenas desses lugares. Cada um. Cada qual. Toda eu. Isto apenas porque acordei dum sonho inaugural do qual não podia sair, porque demasiado entranhado em mim. Esse sonho tão real que me fez duvidar daquele momento em que acordei. Onde não queria mesmo acordar.

Não sei se foi esse o motor da minha combustão… Ou apenas uma memória viva associada, como sempre, a esses momentos cíclicos da nostalgia. Depois disso é sempre o vazio da incerteza. Olhar para um sorriso familiar e viver o passado no presente. Admitir que os nossos lugares mudaram e que o tempo que dedicamos um ao outro não existe, que aquele com quem projetamos o futuro é um outro. Que esse outro é um lugar incerto mas pleno de amor. E que esse passado é algo que ficou arrumado num outro clima da nossa própria existência.

Continuar lendo “Amores múltiplos”

Jogos de ritmo

Se não puder explicar, pelo menos que possa escrever que não é malícia nem maldade. Também não é inocência nem falta de amor. São momentos construídos de espontâneo prazer, que não podem ser explicados ainda que sejam premeditados.

Quase sempre quando são imaginados não são concretizados e todas as vezes que acontecem, nascem no e do fruto duma frustração sem igual. Falta de acolhimento num momento urgente. É sempre a urgência que dita a velocidade com a qual se caminham a passos largos os dois pés juntos.

Continuar lendo “Jogos de ritmo”

IV – Nem às paredes confesso

Confesso-me feliz quando vejo que seguimos juntos como dois cúmplices no metro. Diríamos duas pessoas que conversam abertamente e sem pudor depois de longos anos de intimidade.

De nada disso se tratava por tanto, mas a nossa proximidade era evidente.

O meu sorriso era traidor e a minha vontade de romper as regras era grande. Grande mas não desmesurada. Fiquei a olhar-te, enquanto imaginava as letras que te escrevo hoje. Continuar lendo “IV – Nem às paredes confesso”

III – Nem às paredes confesso

A noite estava destinada a mais um encontro entre desconhecidos. Por se tratar de uma pessoa querida num lugar tão estranho como a cidade romântica mais conhecida do mundo, decidi ainda assim levar a saia curta. Elegante para um aniversário cheio de advogados e vários sorrisos de meia hora, até a bochecha ficar naquela posição desconfortável. O gesto que fazemos quando estamos no lugar errado à hora certa e em que pensamos porque é que não pensei numa desculpa mais cedo. Fim de Janeiro. A crise económica não ultrapassa a crise que criava ao redor dos meus pensamentos e frustrações. Sair no meio da chuva e do frio, de saia curta em direção duma noite plena de estranhos, completamente prometedor. « Ah, eu estou atrasada!… Espera mais um pouco e eu chego!! » dizia ela ao telefone, enquanto corria no meio de dois metros, atarefada de sacos e balões de festa. Um casal de amigos e um casal de tenra idade. Afinal éramos todos convidados para a mesma festa. E eu sem nada compreender. Na mão a minha singela garrafa de vinho tinto, ornada de muito amor e um laço brilhante feito em papel. Queria modernizar o estilo e poder dizer-lhe que a tinha escolhido de propósito para o seu aniversário. Mas ela estava no metro. Chegou e tudo era ainda mais stressante no momento de receber os convidados. Éramos convidados à sua festa de anos, mas ela não festejava. Continuar lendo “III – Nem às paredes confesso”

II – Nem às paredes confesso

Quando saíste com o teu casaco negro fazias adivinhar o teu porte de natureza pequena no teu jeans tão bem repassado como a tua camisa, alinhados no teu lenço. Senti-me grande ao teu lado. E acredita que não era isso que procurava. Procurava mais poder ser protegida que exposta ao meu tamanho e ao meu desajeito.

A saia preta já me parecia curta e ainda assim as botas deveriam ter sido trocadas por algo mais elegante, como tu. Mas o conforto não me deu asas a que essa sedução pudesse ter lugar em tais circunstâncias.

Acredita que me fizeste medo. Não o suficiente, depois de tantas ilusões que criei. Mas o necessário para que deixasse de te encontrar – para me encontrar. Continuar lendo “II – Nem às paredes confesso”

I – Nem às paredes confesso

Podes vir. Podes chegar, eu estou pronta e não tenho medo de enfrentar os teus olhos castanhos, o teu riso tímido e desajeitado ao lado das tuas mãos tão inseguras, que se afirmam como se o mundo lhes pertencesse nesse momento desconhecido. Ficarei aqui até que os teus olhos possam dormir em paz, até que oiça os teus sonhos nos meus sonhos, até que veja o teu olhar no meu olhar. A tua insegurança é a tua maior rebeldia. Escondido nesse envolto de segurança e grandeza, na determinação apenas pensamos que és um vencedor. Mas na verdade és a alma despida de amor, és uma procura de reconforto e algo rejeitado e com isso tão frustrado. O controlo faz parte da tua soberania e é por isso tão complexo conseguir ficar a teu lado. Estarei pronta desta vez. Continuar lendo “I – Nem às paredes confesso”

Quando a praga me pregou uma partida

Ou quando me perdi a caminho de Praga…

Isto era para ser o primeiro fim de semana em viagem romanticazinha. Sim, já namoriscávamos há uns meses. Há dois oficialmente. Quando lhe pedi em namoro, não fosse ele mudar de ideias… E pronto, decidido, decidimos. Lá íamos nós para Praga. What else? Para dizer a verdade, já tínhamos planeado a coisa antes de estarmos romanticozinhos, quer dizer que íamos partilhar um momento de descoberta a dois. Algo à medida da nossa cara, já que foi assim que nos conhecemos. Mas isso é uma outra história… Então, tudo pronto e tal. Malas, bilhete, avião. Lá vão eles todos fofos em pleno Maio num frio desgramado e num céu cinzento em Paris, aterram em pleno sol na República Checa. Ah que sim, isso mesmo. Estava sol! Só para nós (óbvio). O acordo era: um orienta o voo, o outro orienta o hotel. Eu devia ter escolhido o voo. Porque é difícil perder um avião de vista… mas não. Escolhi o hotel. Continuar lendo “Quando a praga me pregou uma partida”

Uma paixão às cores

Ainda acredito no amor ? Ou alguma vez acreditei naquilo que deveria ser o amor como eu tinha imaginado ?

É o assunto mais rodado de todo o mundo, fala-se em todas as línguas e interroga-se em todas as culturas. Não sei como é ensinado, nem se alguém chegou a aprendê-lo de facto. Dei-me de caras com ele – desde sempre. Não demorou muito, sempre acreditei que era para sempre. Sim, um amor de sempre. Para sempre. Logo, agora. Não importa.

Ainda não tinha lido a história com a qual queria terminar os meus dias, entre fósforos ardentes, como em «Água para Chocolate», mas sabia já desde então, que seria assim. Do fundo mais profundo que eu tivesse. O problema é que podia durar pouco tempo. Mas quero explicar que não muda o tamanho. Era verdadeiro quando era intenso, era verdadeiro quando era doente, da mesma forma que era verdadeiro quando era incerto. O amor ganhou várias formas, caras, nomes. Teve muitos lugares, mas morou sempre em mim. Quando tentei separar-me dele, acabei por me enredar em paixões que elas nem sempre eram de natureza pura. O meu amor também é impuro, não acredito demais em plenitude. Mas as paixões podem rapidamente tornar-se um vício e logo se tornam montanhas russas cheias de altos e baixos. É preciso não ter vertigens para se deixar embriagar em paixões desse tamanho. Continuar lendo “Uma paixão às cores”

Longe como dezasseis

Querida mana,

Por muito amor, feliz aniversário. Por muito longe, feliz aniversário. Por muita saudade, feliz aniversário. Daqui um beijo, um abraço e o teu sorriso, o teu carinho e a tua existência gravados. Hoje fazes dezasseis anos, estou orgulhosa de ti. Lembro-me de quando fiz dezasseis anos e de como o teu sorriso grande no teu rosto pequeno, iluminavam já os meus dias, no brilho dos teus olhos pretos.

Continuar lendo “Longe como dezasseis”