Amores múltiplos

Dou por mim a imaginar o sabor desse doce de fel. Nada parece ter ficado resolvido e ao mesmo tempo nada ficou por resolver… Parece um misto estranho que me invade e atormenta este desejo inquieto cheio de vários rostos, de diferentes nomes. Este lugar vazio e diversas vezes preenchido que nunca teve como se transformar… Cheio de tantas cores. Cheio apenas desses lugares. Cada um. Cada qual. Toda eu. Isto apenas porque acordei dum sonho inaugural do qual não podia sair, porque demasiado entranhado em mim. Esse sonho tão real que me fez duvidar daquele momento em que acordei. Onde não queria mesmo acordar.

Não sei se foi esse o motor da minha combustão… Ou apenas uma memória viva associada, como sempre, a esses momentos cíclicos da nostalgia. Depois disso é sempre o vazio da incerteza. Olhar para um sorriso familiar e viver o passado no presente. Admitir que os nossos lugares mudaram e que o tempo que dedicamos um ao outro não existe, que aquele com quem projetamos o futuro é um outro. Que esse outro é um lugar incerto mas pleno de amor. E que esse passado é algo que ficou arrumado num outro clima da nossa própria existência.

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Jogos de ritmo

Se não puder explicar, pelo menos que possa escrever que não é malícia nem maldade. Também não é inocência nem falta de amor. São momentos construídos de espontâneo prazer, que não podem ser explicados ainda que sejam premeditados.

Quase sempre quando são imaginados não são concretizados e todas as vezes que acontecem, nascem no e do fruto duma frustração sem igual. Falta de acolhimento num momento urgente. É sempre a urgência que dita a velocidade com a qual se caminham a passos largos os dois pés juntos.

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praga_cronicas

Quando a praga me pregou uma partida  Primeiro capítulo  °  Segundo capítulo °  Terceiro capítulo

IV – Nem às paredes confesso

Confesso-me feliz quando vejo que seguimos juntos como dois cúmplices no metro. Diríamos duas pessoas que conversam abertamente e sem pudor depois de longos anos de intimidade.

De nada disso se tratava por tanto, mas a nossa proximidade era evidente.

O meu sorriso era traidor e a minha vontade de romper as regras era grande. Grande mas não desmesurada. Fiquei a olhar-te, enquanto imaginava as letras que te escrevo hoje. Continuar lendo “IV – Nem às paredes confesso”

III – Nem às paredes confesso

A noite estava destinada a mais um encontro entre desconhecidos. Por se tratar de uma pessoa querida num lugar tão estranho como a cidade romântica mais conhecida do mundo, decidi ainda assim levar a saia curta. Elegante para um aniversário cheio de advogados e vários sorrisos de meia hora, até a bochecha ficar naquela posição desconfortável. O gesto que fazemos quando estamos no lugar errado à hora certa e em que pensamos porque é que não pensei numa desculpa mais cedo. Fim de Janeiro. A crise económica não ultrapassa a crise que criava ao redor dos meus pensamentos e frustrações. Sair no meio da chuva e do frio, de saia curta em direção duma noite plena de estranhos, completamente prometedor. « Ah, eu estou atrasada!… Espera mais um pouco e eu chego!! » dizia ela ao telefone, enquanto corria no meio de dois metros, atarefada de sacos e balões de festa. Um casal de amigos e um casal de tenra idade. Afinal éramos todos convidados para a mesma festa. E eu sem nada compreender. Na mão a minha singela garrafa de vinho tinto, ornada de muito amor e um laço brilhante feito em papel. Queria modernizar o estilo e poder dizer-lhe que a tinha escolhido de propósito para o seu aniversário. Mas ela estava no metro. Chegou e tudo era ainda mais stressante no momento de receber os convidados. Éramos convidados à sua festa de anos, mas ela não festejava. Continuar lendo “III – Nem às paredes confesso”

II – Nem às paredes confesso

Quando saíste com o teu casaco negro fazias adivinhar o teu porte de natureza pequena no teu jeans tão bem repassado como a tua camisa, alinhados no teu lenço. Senti-me grande ao teu lado. E acredita que não era isso que procurava. Procurava mais poder ser protegida que exposta ao meu tamanho e ao meu desajeito.

A saia preta já me parecia curta e ainda assim as botas deveriam ter sido trocadas por algo mais elegante, como tu. Mas o conforto não me deu asas a que essa sedução pudesse ter lugar em tais circunstâncias.

Acredita que me fizeste medo. Não o suficiente, depois de tantas ilusões que criei. Mas o necessário para que deixasse de te encontrar – para me encontrar. Continuar lendo “II – Nem às paredes confesso”

I – Nem às paredes confesso

Podes vir. Podes chegar, eu estou pronta e não tenho medo de enfrentar os teus olhos castanhos, o teu riso tímido e desajeitado ao lado das tuas mãos tão inseguras, que se afirmam como se o mundo lhes pertencesse nesse momento desconhecido. Ficarei aqui até que os teus olhos possam dormir em paz, até que oiça os teus sonhos nos meus sonhos, até que veja o teu olhar no meu olhar. A tua insegurança é a tua maior rebeldia. Escondido nesse envolto de segurança e grandeza, na determinação apenas pensamos que és um vencedor. Mas na verdade és a alma despida de amor, és uma procura de reconforto e algo rejeitado e com isso tão frustrado. O controlo faz parte da tua soberania e é por isso tão complexo conseguir ficar a teu lado. Estarei pronta desta vez. Continuar lendo “I – Nem às paredes confesso”

Quando a praga me pregou uma partida (III)

Voltámos a correr para o hotel. E a voar para a estação. Queríamos dois bilhetes para Praga. Mas o comboio já partiu. Então queremos dois bilhetes para Praga, no próximo comboio. Mas o próximo comboio nunca mais aparecia… Sentámos-nos nos bancos de madeira. E tentámos relativizar. Ainda nos estávamos a conhecer… Eu não sei relativizar.

Esperámos tanto tempo que tinha as costas feitas em madeira. Ouvimos um barulho parecido a um comboio. Saltámos do banco e atravessámos a linha. Sim, em Kutná Hora para apanhar o comboio as pessoas plantam-se no meio da linha – literalmente. Juro. Fizemos sinais, mímicas. Risos. Mas nada funcionou. Queríamos saber se o comboio ia para Praga. Visto que na estação não havia muita informação. Esquece. Entramos no comboio e saímos em Praga…Confortáveis, entre quatro pessoas, frente a frente, num corredor minúsculo, apanhámos lugar. Entre indecisão e riso, esperávamos chegar a Praga a tempo de descobrir a cidade. Fomos descobertos uma meia hora depois. Continuar lendo “Quando a praga me pregou uma partida (III)”

De Lisboa a Paris : o que mudou ?

A minha vida em cinco pontos 

1 – não me canso de dizer, mas uma agenda é quase indispensável. Seja electrónica, isto é, no email ou no telemóvel, ou seja como a minha, no bom e velho papel. Toda rascunhada, cheia de números sem nome. De nomes sem número. E de datas, sempre no dia errado. Mas é importante. Lembro-me do primeiro dia que cheguei à associação do voluntariado (quando fiz o voluntariado europeu), a tutora perguntou-me se eu tinha uma agenda. Eu, na minha ingenuidade, levei a pergunta para o sentido tens uma agenda? és uma pessoa muito ocupada?. Não era isso. E ela tratou logo de me encontrar uma agenda novinha em folha. 2013. Um ano que durou, durou… A agenda é um acessório indispensável seja na vida íntima ou profissional. Mas um dia falo melhor sobre isto…  Continuar lendo “De Lisboa a Paris : o que mudou ?”

Quando a praga me pregou uma partida (II)

Agora era preciso explicar que não tinha percebido que o hotel ficava a duas horas de Praga, que queria anular a reservação – feita pela internet – dormir esta noite, partir amanhã e ainda pedir conselhos sobre a estadia na capital. Olha a lata. A cena foi… acalmá-lo, ele nunca se enerva, sobretudo, era o primeiiiiro fim-de-semana. Mas já estava cansado da viagem e não via o fim do dia chegar. Melhor, tínhamos duas garrafas de vinho (francês, claro) na mala e nada para jantar. A coisa prometia… Tive de lhe dizer, que como pessoa adulta e responsável pela sua leitura dos hotéis em Praga, eu ia tomar conta da situação. Chamei o senhor e disse-lhe que queria a chave e anular a reservação. Claro, ele não percebeu nada. Aliás, falava tão bem inglês, que foi chamar o seu superior. Que evidentemente, a esta hora já não estava a trabalhar. Então pôs-me em linha com ele. E, como é claro, ele não percebeu nada. Mas não tardou a aparecer no hotel. E nós dois plantados na recepção, cansados e com fome. Tive de lhe dizer que queríamos ir para Praga e que eu tinha visto mal a distância – a risada era geral. Agora precisava anular, voltava depois. Não disse quando. Estava quase tudo pronto, quando se deram conta que tinha feito a reserva através dum site internet, então a anulação devia passar por eles. Estão a brincar, certo? Já cheguei até aqui. E já estou de partida amanhã. Continuar lendo “Quando a praga me pregou uma partida (II)”