Amores múltiplos

Dou por mim a imaginar o sabor desse doce de fel. Nada parece ter ficado resolvido e ao mesmo tempo nada ficou por resolver… Parece um misto estranho que me invade e atormenta este desejo inquieto cheio de vários rostos, de diferentes nomes. Este lugar vazio e diversas vezes preenchido que nunca teve como se transformar… Cheio de tantas cores. Cheio apenas desses lugares. Cada um. Cada qual. Toda eu. Isto apenas porque acordei dum sonho inaugural do qual não podia sair, porque demasiado entranhado em mim. Esse sonho tão real que me fez duvidar daquele momento em que acordei. Onde não queria mesmo acordar.

Não sei se foi esse o motor da minha combustão… Ou apenas uma memória viva associada, como sempre, a esses momentos cíclicos da nostalgia. Depois disso é sempre o vazio da incerteza. Olhar para um sorriso familiar e viver o passado no presente. Admitir que os nossos lugares mudaram e que o tempo que dedicamos um ao outro não existe, que aquele com quem projetamos o futuro é um outro. Que esse outro é um lugar incerto mas pleno de amor. E que esse passado é algo que ficou arrumado num outro clima da nossa própria existência.

Todas as vezes que o passado se aproxima pergunto-me em qual trovoada ainda vou experimentar este momento da minha vida. Encho-me instantaneamente da vontade de ir. Tão rapidamente quando o abraço, feliz de chegar a casa. E logo depois tudo se transforma numa nuvem, como esfumaça. É uma espécie de nuvem do tamanho do meu ego, que se transforma com a força do alimento.

Durante os poucos minutos em que o flirt bate, no ar enchem-se estrelas de estrelas. Lugares perfeitos. Mundos à parte. Universos de permissão e uma singularidade na forma como me dou (nos damos) a esta maneira de ser cúmplices. Penso que é isso que o passado nos dá; uma forma de ser cúmplice. Uma forma de nos aproximarmos de um desejo que queremos realizar. É a realização, a concretização. É o vazio que se torna pleno, é a harmonia destabilizada. São dois corpos em chama, é um fogo. É um mundo paralelo a este mundo, é a liberdade de dois egos. É o meu ego. O meu desejo.  O meu medo de não conquistar mais um pedaço de todo o mundo que poderia guardar.

Deparo-me com estas listas sem rosto, cheias de nomes, com as fotos, às dezenas. E ainda mais com as memórias que nem tiveram tempo para ser conseguidas. Pergunto-me apenas se era a liberdade ou a prisão que procurava. Qual das duas me atormentava mais e com a qual eu não sabia lidar. Pergunto-me sempre sem resposta. É tudo falta de amor, quero a querer. Mesmo sem admitir. Mas era isso mesmo.

Um lugar vazio para encher de amor. Um lugar seguro para amar. Onde é que eu não aprendi a multitude daquilo que é estar. Porque nos ensinam a devoção a um ser. Um único. Nos castigam e nos excluem pelos diversos que podemos amar, querer.

Não me ensinaram (não nos ensinam) que podemos querer de diversas formas sem magoar. Ensinam-nos a possessão e por isso os egos se sentem rejeitados neste ciclo mais profundo. Quando não somos bons o suficiente para ocupar um só lugar na vida dessa pessoa. Na verdade não era nada disso que estava previsto. Não é contra alguém que fazemos algo, mas para si mesmos. Não é a aprender a destruição que causamos que aprendemos a liberdade que temos ou como podemos tanto construir se não tivéssemos este medo de destruir. Sim, o respeito e a partilha. Sim. Devemos considerar que existem tantas outras pessoas e tantas outras formas de pensar e existir. Só queria que um maior espaço fosse dado a si mesmo, sem medo de errar.

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Imagem Editada ©Ryan McGuire Gratisography 

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