IV – Nem às paredes confesso

Confesso-me feliz quando vejo que seguimos juntos como dois cúmplices no metro. Diríamos duas pessoas que conversam abertamente e sem pudor depois de longos anos de intimidade.

De nada disso se tratava por tanto, mas a nossa proximidade era evidente.

O meu sorriso era traidor e a minha vontade de romper as regras era grande. Grande mas não desmesurada. Fiquei a olhar-te, enquanto imaginava as letras que te escrevo hoje.

Estava feliz e quente, a humidade era um sinónimo de aprovação entre as minhas meias pretas e a tua madeixa rebelde. O teu fato tão bem engomado, que eu apenas imaginava rasgar. Rasgar como a toda a tua roupa. Deixar tombar os teus óculos e arranhar fundo a pele das tuas costas.

Chegámos.

A realidade caiu.

A chuva fria lembrou-me que estávamos em Janeiro e o caminho de casa fazia-se em menos de dez minutos.

« Esta é a última vez que te vejo? ». Previas já todo o romance redentor que a ninguém hoje se esconde. Pensaste que depois de uma noite inteira de olhares de sedução, serias tu quem tiraria a última carta ao dizer, beija-me. Mas não eras tu quem comandava a partida. E mais tarde vieste a descobrir como existem coisas impossíveis de pedir.

Um beijo.

Ninguém pede um beijo.

Roubam-se. Dão-se. Partilham-se. Criam-se. Mas não se pedem.

Entre as gotas da chuva então pediste-me o meu número. A melhor invenção tecnológica que permite o contacto instantâneo entre os seres afastados.

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Imagem Editada ©Ryan McGuire
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