III – Nem às paredes confesso

A noite estava destinada a mais um encontro entre desconhecidos. Por se tratar de uma pessoa querida num lugar tão estranho como a cidade romântica mais conhecida do mundo, decidi ainda assim levar a saia curta. Elegante para um aniversário cheio de advogados e vários sorrisos de meia hora, até a bochecha ficar naquela posição desconfortável. O gesto que fazemos quando estamos no lugar errado à hora certa e em que pensamos porque é que não pensei numa desculpa mais cedo. Fim de Janeiro. A crise económica não ultrapassa a crise que criava ao redor dos meus pensamentos e frustrações. Sair no meio da chuva e do frio, de saia curta em direção duma noite plena de estranhos, completamente prometedor. « Ah, eu estou atrasada!… Espera mais um pouco e eu chego!! » dizia ela ao telefone, enquanto corria no meio de dois metros, atarefada de sacos e balões de festa. Um casal de amigos e um casal de tenra idade. Afinal éramos todos convidados para a mesma festa. E eu sem nada compreender. Na mão a minha singela garrafa de vinho tinto, ornada de muito amor e um laço brilhante feito em papel. Queria modernizar o estilo e poder dizer-lhe que a tinha escolhido de propósito para o seu aniversário. Mas ela estava no metro. Chegou e tudo era ainda mais stressante no momento de receber os convidados. Éramos convidados à sua festa de anos, mas ela não festejava.

Entre dois « hum  hum » entraste tu.

Não foram precisos três minutos para que eu te reconhecesse atrás dos teus óculos. Aqueles que mostram que tu és tímido.

Sem surpresa nem te lembravas de mim. Ainda que tenhas detalhado os meus mais pequenos gesticulares na primeira noite. Penso que isso mostra bem como tu és rendido. A uma fantasia, a um desejo, a uma vontade. Ficas rendido. Numa nuvem fantástica em que tudo parece a maior semelhança da perfeição.

Depois esqueces.

Esqueceste-te de mim.

Eu lembrei-me de ti. Imediatamente.

Logo depois algo que perturbava os teus pensamentos mostrou que estavas entre o teu profundo des-entendimento contigo mesmo, com o teu emprego, com a tua aparência. Também tu, te perguntas-te o que fazias lá naquele lugar errado àquela hora certa.

Estavas nas tuas roupas apertadas mas bem postas. Calças pretas vincadas, camisa branca, colete preto. Tinhas uma gravata? Não. Não tinhas a gravata. Penso que terias sufocado. Mas o teu blazer estava lá. Tal como a tua madeixa, sempre rebelde.

Visto que as horas passavam, restava-me embrenhar-me no meio das conversas já em caminho e tentar segui-las. Acompanhá-las, talvez.

Não penses que por isso eu te tenha esquecido.

Pouco depois de alguns copos de ponche, sentei-me no sofá em frente do teu banco. Ao redor da mesa todos têm um sujeito que quebre os olhares sobre o que comemos, como mastigamos. Então, sentados frente a frente, talvez conversássemos. Ou não.

Decididamente, não.

O tour da mesa fez-se em pouco. Uns daqui, outros dali. A maioria antigos colegas da universidade, amigas de longa data. E tu. Evidência que ninguém questionou. Nem eu. Afinal deverias conhecê-la de algum lugar, para seres também tu convidado a este aniversário. E eu. Uma nova amiga (esse era o desejo), encontrada algures numa soirée.

Os casais aproximavam-se. Falavam. Discutiam de tudo. Ouvia as conversas ao longe. Como estranhos ecos nos meus ouvidos.

O sujeito tratava de viagens. Então vamos! Algo que também me interessa, talvez isso tenha despertado o meu ouvido a um seguimento mais atentivo do que se passava em torno daquela mesa, e não apenas em frente do meu lugar no sofá. Porque inevitavelmente o meu olhar perseguia os teus gestos, numa dança de adoração e num sufoco de ajuda. Uma espécie de socorro para me ajudar a sair do tédio daquele encontro.

Falámos banalidades. Anedotas sobre o teu físico oculto robusto e forte, de quem corre a maratona. Ninguém se impressionou. Porque ninguém te ouviu. Menos eu. Impressionaste-me. E eu ouvi cada vez mais atentamente cada palavra que tecias entre os teus lábios. Sorrindo com o olhar, atrás dos óculos que mostram como és tímido. Estava embaraçada de não controlar esta busca na tua direcção.

A garrafa de vinho tinto, ornada de fitas e papel de festa estava diante de mim e como uma amiga para quem precisa de algo mais para se desinibir. Inibição não é algo que me corresponda. Mas o vinho teimava em me aquecer nessa noite de Janeiro, em que a saia se tornava curta ou longa em função do movimento de pernas que deixavam anteceder uma provocação.

Como um filme perfeito em que após vários copos de vinho servidos a todos sentados à volta da mesa, chega o momento em que a garrafa termina.

Num mesmo gesto sincronizado as nossas mãos tocaram a garrafa, para também eternizarem o momento em que toquei a tua mão, a tua pele, pela primeira vez.

O silêncio invadiu a peça.

Totalmente.

E é por isso que este momento se grava como uma cena cliché de qualquer filme romântico de cinema. Mas eu confesso que deixei de ouvir o barulho e o som. As vozes desapareceram e a música parou. Converteu-se o universo numa pausa no momento mais acelerado do meu peito.

Finalmente em ti algo se transformou também. A eletricidade entre os nossos dedos deixou transparecer a corrente que já se fazia sentir.

Mas nessa altura já não conseguia mais distinguir os ruídos, os olhares, os rostos. Seguia apenas o teu movimento. Incomodada, decidi partir.

Eis que vista a hora tardia, várias pessoas pensam em regressar no mesmo momento. Entre “adeus” aqui, “adeus” ali, os minutos continuaram de passar.

Entre os vários apressados de última hora, estavas tu. Interrompido da tua tranquilidade, de uma só vez saíste do teu lugar. Ninguém, nem mesmo eu, compreendeu a tua pressa repentina.

Sim. Eu percebi.

Os olhares desesperados e os jogos de saia ainda têm o seu efeito, entre uma meia preta. Pensei eu.

Nada mais.

Saímos os quatro. Na chuva que nos acompanhou até ao metro, cordial e cavalheiro quiseste logo acompanhar-me de braço dado para que na chuva não nos perdêssemos. E mais próximos ficássemos.

Vivias e vives ainda, com certeza, na zona oeste. Insistentemente quiseste ainda trazer-me a casa. Acompanhar-me como se fosse a última vez que aquele jogo perigoso se produzia.

(TO BE CONTINUED)
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Imagem Editada ©Ryan McGuire
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