II – Nem às paredes confesso

Quando saíste com o teu casaco negro fazias adivinhar o teu porte de natureza pequena no teu jeans tão bem repassado como a tua camisa, alinhados no teu lenço. Senti-me grande ao teu lado. E acredita que não era isso que procurava. Procurava mais poder ser protegida que exposta ao meu tamanho e ao meu desajeito.

A saia preta já me parecia curta e ainda assim as botas deveriam ter sido trocadas por algo mais elegante, como tu. Mas o conforto não me deu asas a que essa sedução pudesse ter lugar em tais circunstâncias.

Acredita que me fizeste medo. Não o suficiente, depois de tantas ilusões que criei. Mas o necessário para que deixasse de te encontrar – para me encontrar.

Que em breve possas saber isso. Se me afastei foi para me encontrar, no meu querer e no meu poder. Sem dizer e sem saber, tu estavas a par de tudo. De tudo o que eu te dizia e de tudo o que tu querias expôr como mais e mais sensível de mim. Tentaste em algumas formas acentuar a minha vulnerabilidade para me dizer que algo não ia bem. Sem que por isso te tenhas apercebido que a minha força é apenas a minha fragilidade. Que toda essa fragilidade constrói a minha força, não a destrói.

O meu poder de decidir e saber que não te quero amar, mesmo que possa, ainda que pudesse, foram as palavras mais frias que tu poderias ter ouvido. Mas não ouviste. Não fui eu a coragem fria de essa água gelada.

Preferi assim guardar o prazer da tua declaração de amor, a declaração mais tristemente húmida e alegre que pude receber até então. Entre o banho das lágrimas que me traíam a cada milésimo de segundo em que eu descobria ainda mais secretamente aquilo que os teus lábios desenhavam com a tua voz. Eu suspeitava das tuas palavras e já conhecia os teus sentimentos. Isso fazia-me feliz no silêncio, sem que as palavras fossem ditas. Sem que tudo fosse pronunciado.

Quiseste quebrar esse encanto, penso que na procura do meu consentimento ao beijo pedido depois daquela noite sobre a chuva.

Nem aí o prazer que percorria o meu corpo arrepiado e alegre com as tuas tristes palavras cedeu a esse momento de um homem menor e tão grande na sua certeza.

Descrevo-te esta história tão cabal pelo charme que emanas com a tua confiança, com as estrelas que brilham nos teus olhos aos quereres enxergar um mundo tão diferente do teu. Querendo que sejas meu. É incrível a doença que penso te atravessa o espírito.

Por medo penso que essa franqueza é o acto desesperado como te disse, de encontrares o reconforto de algo que perdeste. Uma súbita, repentina e penso que violenta perda.

É assim que posso egoistamente pôr em causa a natureza desse teu amor maior, vindo de um homem menor tão ao momento de fugazes e intensos encontros.

Se erro, penso que erro, para sempre.

Não voltarei a entender assim convictamente outro alguém dizer que me ama nos olhos da chama ardente, daquilo que quer ser ao lado dessa mulher a quem se mostra rendido.

Rendido.

Tu estavas rendido.

Eis que por isso eu te sentia menor?

Porque não procuro a redenção mas algo superior?

A igualdade.

Procuro a igualdade na redenção, na tentação, na paixão. A igualdade ou a insatisfação, mas não a redenção. Porque te tiveste tu assim diante de mim rendido?

Quando saíste com o teu casaco negro, tinhas o cabelo longo, com a madeixa desarranjada. De forma exacta a deixar antever aquele sorriso do teu olhar. Sei que as tuas mãos são um lugar seguro, mas não escondo como me estranho que sejam finas e delicadas, ao mesmo tempo que são fortes e frias. Dizemos na minha terra que as mãos frias escondem um coração quente. Estou segura que o lugar do teu peito, era um lugar a esconder um coração assim quente.

Não fui capaz.

Pela tua redenção. Porque não quis. Porque não podia. Beijar-te. Os teus lábios como tu se assemelham a mim pequenos. Olha bem como a minha boca é grande, como os meus lábios fariam desaparecer os teus. Tenho medo desse momento em que poderia fazer desaparecer esse beijo tão perfeito que tu sabes que existiria num incómodo encontro entre dois seres tão diferentes.

No fundo tu és grande e eu sou pequena.

De todas as formas somos dois mundos diferentes. Somos quente e frio. Norte e sul. Somos quieto e inquieto. Somos som e silêncio. Imagina como seria difícil compilar e conciliar dois abstractos num só momento concreto.

Paramos diante do palácio. Por instinto, por desejo. Por vontade ou por intuição. Tu eras o modelo perfeito naquela  equação, no quadro que ainda hoje guardo na minha memória. E por qualquer preço não quero voltar, para que não me perca na memória e destrua esta imagem. Certamente enquanto não voltar diante deste lugar que a única memória que guardarei será a tua, diante das paredes brancas. Era noite. Eu queria tocar a tua mão. Quis tudo num só segundo. E ainda aconteceu. O que nada aconteceu. Por isso guardo este momento.

Aquele momento em que quis desejar desejar-te e responder ao meu desejo de te tocar. Conseguir sair de mim e obrigar o meu querer, ao meu poder e o meu poder, à minha satisfação…

(TO BE CONTINUED)

85H_confesso_2.png

Imagem Editada ©Ryan McGuire
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