I – Nem às paredes confesso

Podes vir. Podes chegar, eu estou pronta e não tenho medo de enfrentar os teus olhos castanhos, o teu riso tímido e desajeitado ao lado das tuas mãos tão inseguras, que se afirmam como se o mundo lhes pertencesse nesse momento desconhecido. Ficarei aqui até que os teus olhos possam dormir em paz, até que oiça os teus sonhos nos meus sonhos, até que veja o teu olhar no meu olhar. A tua insegurança é a tua maior rebeldia. Escondido nesse envolto de segurança e grandeza, na determinação apenas pensamos que és um vencedor. Mas na verdade és a alma despida de amor, és uma procura de reconforto e algo rejeitado e com isso tão frustrado. O controlo faz parte da tua soberania e é por isso tão complexo conseguir ficar a teu lado. Estarei pronta desta vez.

A aceitar, a acreditar que comigo mesma me possas amar. Com a minha fúria, com a minha raiva e com toda a minha insanidade. Pareces seguro de querer enfrentar todos estes fantasmas apenas para que não te confrontes ao teu próprio medo de estar só e sobretudo de não saber amar. É algo que não conduzes voluntariamente e que com força tentas solucionar, mas não faz parte de ti. Tu não sabes amar. Aina não posso verbalizar este pensar, mas tu amas-te? Em algum momento pensaste que poderias ser amado? A tua sede de amar é tão grande, quase tão altruísta quanto egoísta. Mas não vemos certamente como poderás tu ser capaz de amar não te amando.

Saíste com o teu casaco negro. Na perfeição do teu penteando despenteado. Com um sorriso no canto dos olhos como nunca antes conheci. Talvez tenha sido esse charme de homem pequeno que sorri com o olhar que me tenha assim atraído em ti.

Ou a tua força. No teu tamanho.

Sim, desprezei o teu tamanho. E ainda o considero menor. Não posso imaginar que me possas amar se não és grande assim para mim.

Fala-me o orgulho e a vaidade, fala-me quase a presunção. O engano e o medo de estar desprotegida e, por isso, a ilusão de um tamanho protector.

Mas tu és menor.

A tua sede é maior.

E nós os dois, dois estrangeiros num mundo de mudos conhecidos aos apalpões. Digamos que tudo é certo para que nada dê errado. Basta que cada um siga no seu passeio e não se volte atrás com questões e dúvidas sobre o passo seguinte. O passo seguinte.

Aquele passo que tu insinuaste face a mim e às minhas lágrimas. À janela da tua casa. Perante aquela vista sobre a cidade. Adorei a tristeza da tua notícia. Uma verdadeira melancolia sórdida e encolhida de húmida alegria. Alguém que me poderia amar. Alguém tão seguro do seu amor que por si só chegaria para amar a dois. Um amor que ama por duas pessoas. Algo ainda não ouvido nas minhas melodias, talvez já traçado no meu passado e por isso tão temido do meu presente.

A satisfação que saboreei foi maior do que as lágrimas que chorei. E os gritos. Esses nunca saíram. Mas seriam de pura euforia. Algo entre uma alegria e uma tristeza, juntos e misturados. Não poderias compreender.

Ainda assim, olhaste-me fundo nos olhos e procuras-te em mim um sim, que eu não pude dar. E voltaste-me com a mesma questão. Se tudo se resumia a um poder então nada estava perdido, porque eu te queria.

Foste astucioso no teu pensamento. Não precisava de provas da tua inteligência. Já a tinha decorticado integralmente na primeira de todas as noites em que te vi, sentado naquele lugar desconhecido, no meio de tantos outros, onde parecias perdido na procura do meu olhar desviado. A confirmação veio mais tarde, nessa segunda noite, mais familiar mas ainda tão longe de quem tu és. Eu sabia que és inteligente. Por isso não me surpreendi.

No momento não poderia destruir a tua tristeza e a minha infelicidade e dizer-te que afinal eu tinha todo o poder de te amar, simplesmente não queria. Destruiria a tua inteligência e sofreríamos ainda mais os dois. Desnecessário num quadro já tão dramático. Não pude dizê-lo nessa altura e jamais o entenderás por mim dizer.

(TO BE CONTINUED)

85H_confesso

Imagem Editada ©Ryan McGuire
Anúncios

Deixa o teu comentário !

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s