Quando a praga me pregou uma partida (II)

Agora era preciso explicar que não tinha percebido que o hotel ficava a duas horas de Praga, que queria anular a reservação – feita pela internet – dormir esta noite, partir amanhã e ainda pedir conselhos sobre a estadia na capital. Olha a lata. A cena foi… acalmá-lo, ele nunca se enerva, sobretudo, era o primeiiiiro fim-de-semana. Mas já estava cansado da viagem e não via o fim do dia chegar. Melhor, tínhamos duas garrafas de vinho (francês, claro) na mala e nada para jantar. A coisa prometia… Tive de lhe dizer, que como pessoa adulta e responsável pela sua leitura dos hotéis em Praga, eu ia tomar conta da situação. Chamei o senhor e disse-lhe que queria a chave e anular a reservação. Claro, ele não percebeu nada. Aliás, falava tão bem inglês, que foi chamar o seu superior. Que evidentemente, a esta hora já não estava a trabalhar. Então pôs-me em linha com ele. E, como é claro, ele não percebeu nada. Mas não tardou a aparecer no hotel. E nós dois plantados na recepção, cansados e com fome. Tive de lhe dizer que queríamos ir para Praga e que eu tinha visto mal a distância – a risada era geral. Agora precisava anular, voltava depois. Não disse quando. Estava quase tudo pronto, quando se deram conta que tinha feito a reserva através dum site internet, então a anulação devia passar por eles. Estão a brincar, certo? Já cheguei até aqui. E já estou de partida amanhã.

Eu pago hoje. Porque durmo hoje. Aliás, já tinha pago. Mas como amanhã não durmo, amanhã não pago. E… já agora, inclua o pequeno-almoço, que eu estou com fome. Vários minutos depois… chave na mão! É claro que tudo era como na foto. A começar pela banheira… Eu morava num estúdio bem arranjado, mas que tinha um chuveiro onde só dava para entrar de lado. Nível conforto… – estava a sonhar com um banho de banheira. E após viagem acima, viagem abaixo… Foi logo. Abri a torneira e deixei correr. Gel de duche do hotel, com cheiro a velho, de lavanda. Mas não faz mal. Depois lavo-me com o meu. Por agora só quero espairecer e adormecer.

Enquanto isso o L. estava no quarto (até parece uma suite, mas não, era só um quarto), à procura de alojamento em Praga. Dentro de Praga? Isto é, no centro? Não. Ele já tinha aberto a garrafa do tinto que tínhamos comprado no aeroporto. E enquanto eu fazia bolas de sabão, ele foi à recepção pedir um saca-rolhas e dois copos (de vidro, se faz favor). E lá estava ele. Deve ter sido por isso que não leu bem a morada, mas…

Acordei como um pardal, toda fresca e pronta para descobrir a dita cidade. Da janela podia, finalmente, avistar a beleza tão prometida. Os prédios em frente eram coloridos. Um laranja, um azul… cada um de uma cor. No meio da praça haviam umas árvores plantadas. Era cedo e eu estava desejosa de sair à rua. Ele estava na dúvida se valia a pena sair, o melhor era apanhar o primeiro comboio de volta. Tentei convencê-lo a descer para o pequeno-almoço, pelo menos. Um enorme salão esperava por nós. Éramos madrugadores ou o hotel estava vazio? Não, éramos madrugadores. Mais tarde apareceram alguns homens de negócios, casais e um grupo de motards. Sim, havia um meeting e eles estavam lá em força. Antes de nos aventurarmos perguntei pelos horários do comboio. O melhor era apanhar o comboio das 13h, para chegar a tempo do check-in. Mas às 13h são horas de almoçar… Então vamos no seguinte. Tudo combinado, só não perguntámos a que horas e, se, havia outro. Enquanto o L. subiu ao quarto procurar os óculos de sol, eu sentei-me na esplanada à apreciar a vista. As pessoas começavam a sair. Os comércios já abriram e eu estou curiosa para descobrir os encantos da cidade. Ou da vila? Fomos sem rumo. Andámos pela praça acima. Inesperadamente estava calor, muito calor. E eu estava com sede. Tinha aproveitado para aprender a dizer obrigada em checo. Para dar aquele toque de quem percebe o que eles dizem – mas na verdade só ri amarelo. Entretanto já não me lembro… Mas entrei num pequeno comércio, tinha a fachada vermelha, em madeira. Queria comprar água, sem gás, de preferência. Claro, a senhora já bem idosa, percebeu logo que eu era turista, mas não percebeu que eu queria água sem gás. E vendeu-me duas garrafas. Obrigada. Ele estava cá fora, à sombra. Fotografava cada detalhe, sentia-me uma star, com o meu paparazzi.

Andámos mais uns metros. Quando… demos de caras com uma enorme muralha. Estávamos meio perdidos, porque do outro lado parecia o fim da cidade. Havia uma estrada, carros e casas diferentes. O melhor é não ser demasiado aventureiro, perder-se aqui no meio do nada, nunca mais chegamos a Praga. Fomos, claro, na direcção da muralha. Passámos por caminhos que não sabemos se eram privados ou não. Ouvimos vozes, barulhos estranhos. Mas fingimos que conhecíamos onde íamos. E, quando chegámos encontrámos este lugar lindo. Subimos a muralha, cara a cara com uma catedral ou uma igreja ou não sei como se chama, saído dum filme do Drácula. Em baixo, ao lado dum cemitério, havia uma vinha. E a vista daqui, era desbravada. Sem fim. Fizemos todas as fotos possíveis. Entrámos em todas as portas abertas e não comprámos nada. Namorámos tudo o que pudemos e continuámos a andar. De facto, havia algo diferente. Não pudemos entrar na catedral, mas demos quatro voltas. Para apreciar cada detalhe. Lembro-me que não queria passear ali de noite. Aquelas estátuas tinham alma. E estavam plantadas em cima do cemitério, ao lado da vinha. Vinho abençoado. Fomos até ao outro lado da cidade. Atravessámos as ruelas, vimos as pessoas. Pensámos em sentarmo-nos num café. Quando vimos que já era quase meio-dia.

Graças ao mundo tecnológico e aos nossos gostos pela internet, conectámos-nos ao wifi dum hotel. Um outro (afinal havia vários). E procurámos onde seria bom comer nesta cidade, pintada de sol e de prata. Após rápidas trocas de ideias, vários turistas aconselhavam de experimentar o restaurante deste… sim! Deste hotel, onde estávamos (in)delicadamente a usar o wifi. Sabíamos que era cedo, mas, precisávamos de apanhar o comboio. Então, convidámos-nos a entrar. Notou-se que ninguém estava à espera. Ainda andavam dum lado para o outro com o pão, com os sacos, de certeza que o almoço ainda não estava pronto…

Fomos convidados para o terraço, visto que aquele dia de sol estava espetacular. As mesas eram todas delicadas, a cadeira um bocado pequena para o meu traseiro. Mas tinha uma almofada, para me aconchegar. O L. não queria saber da carta, queria pedir vinho e peixe. Ele não gosta muito de aventuras culinárias. Eu pedi ao garçon para me dizer o que é que era típico – mas não muito exótico. Lembro-me duma espécie de sopa. E depois comi umas batatas com carne. Dito assim, não parece bom. Mas era. O que me lembro melhor é do vinho. Era um vinho branco que vinha casar com o sol, com o dia e com a vontade de prolongar este fim-de-semana até sempre. Fomos tratados como membros exclusivos, visto que éramos os únicos clientes. O empregado percebeu rapidamente que éramos franceses – quer dizer, franceses, se faz favor. Falamos francês. Ele estava curioso. Queria saber como era Paris. O que tínhamos vindo fazer e tudo mais. Eu deixei-os discutir. Não morava em Paris e estava a aproveitar o sol para fazer de lagarto. (Fazer de lagarto é fechar os olhos ao sol. Repetir). Aquela era a primeira refeição checa, para mim. Porque ele comeu um peixe, no meio duma cidade banhada de árvores, onde a melhor água que passa é a do rio. E eu não gosto de peixe do rio. Ficámos. Deliciámos-nos. E… já eram 13h. E as malas estavam no hotel. Claro… (to be continued)

Imagem Editada ©Ryan McGuire
Imagem Editada ©Ryan McGuire
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