Na cave dum bar de jazz

Repentinamente, logo depois dum colapso entre um concerto desejado durante meses (ou anos, desde que o conheço), e uma abstinência – decidi comprar um novo bilhete. Este para assistir à performance dum artista até então desconhecido – e mesmo agora, já me esqueci do nome, para dizer a verdade. O músico em questão é vizinho do vizinho que mora lá no país dele. Fomos cedo porque disseram-nos que a sala era pequena. E depois dum almoço na cantina ao meio-dia, é claro que já era tarde para jantares românticos. Comemos um hamburger no Paris New York, para dar o tom de mellow jazz que se anunciava para mais tarde…

E, ainda bem que chegámos cedo. A sala meio exígua, dispunha duma mini plateia, rodeada de mesas encostadas à parede. Ocupámos logo o lugar num sofá velho e desconfortável, ao lado dum casal, já batido nestes serões. Notava-se, porque tinham o melhor lugar. Estavam sentados à minha esquerda. Durante escassos minutos um intruso apareceu para se sentar no espaço reservado à intimidade de cada casal.

Só para ter boa vista para o palco. Mas eu apertei-lhe o rabo e ele foi-se embora, sentou-se numa cadeira. Obrigada senhor desconhecido, por não me estragar a noite com o meu namorado. Entretanto, olho para a direita. Dois jovens, que pelos vistos queriam ocupar o lugar de cinco pessoas… (não querem mais nada? Perguntei-lhes eu com os olhos). Do lado direito deles o sofá que percorria a parede fazia um ângulo, um grupo de amigas tinha vindo directamente do escritório para a festa. E… foi aí. Ao lado delas, exactamente colada, uma loira. Sim. Não tem problema, ser loira. Mas ela era loira. Devia ter uns trinta ou trinta e cinco anos (estava lusco-fusco), sentada com um homem. Devia ter… não sei que idade. Faltava-lhe cabelo, os poucos que tinha, eram brancos. Tinha umas meias brancas. Umas calças feias, castanhas. E um riso intimidante. O meu olhar ficou fixo neles. Não me perguntem. Naquela cena alguma coisa não estava dentro dos parâmetros. E não era a idade, nem a cor do cabelo. Ele tinha o braço em volta do ombro dela, mas ela estava desconfortável. Ainda que risse com pouca vontade. Ela vestia-se duma maneira mais elegante, tinha umas botas altas, pretas. Umas calças de ganga. Ele tinha aquelas calças feias, vincadas, de velho sem gosto. Pior, aquelas meias brancas, que davam o toque para a discoteca, se apagassem de vez as luzes. Enquanto o L. foi buscar as bebidas, ele apareceu na mesa com duas cervejas. Daquelas baratuchas, a condizer com o sofá. Eu tentava distrair-me com o movimento de chegada dos espectadores, mas confesso-me incapaz de não olhar, quando estou curiosa. Fiquei a observar o que é que me chocava naquela figura. E… encontrei. Era aquele olhar maquiavélico.

Quando o L. chegou, acompanhado duma taça de champagne e duma cerveja daquelas meio loucas, eu disse-lhe « não olhes, mas aquele homem tem um ar estranho ». Claro que ele olhou. Logo. E disse-me, que como de costume eu estava cheia de ideias. A conversa acabou ali. Mas as minhas ideias continuaram a florescer… Na verdade ele tinha algo de estranho. Quando subitamente, ela também tinha um certo ar de quem estava a esconder alguma coisa.

Não tardou muito, até descobrir. Ao som dos acordes vindos do fundo da África, arranjados à música francesa… Tratava-se dum casal que recrutava as suas presas para crimes inimagináveis. Eles alimentavam uma paixão por jogos sádicos. Tinham por hábito caçar as suas presas a dois. Ele era a orelha atenta das mulheres que frequentavam as caves parisienses e ela, com o seu ar doce e jovem, atraía os olhares. Rapidamente as discussões floresciam, eles não tinham nada mais a fazer, além de consumir o jogo. As regras eram simples, por cada presa um casal. Era uma forma de religião, para desenvolver aquele culto do sadismo violento, escondido entre as brumas da música, do sexo e do álcool.

Tratavam-se dos mentores duma rede de tráfico de mulheres. Actuavam entre as ruas da capital, pelos bairros mais movimentados. Nada de turistas, apenas de velhos turistas. Sim, velhos turistas. Aqueles que um dia vieram para Paris cheios de sonhos e acabaram por sacrificar a vida deles a trabalhar. Longe da família, longe da sua cultura, longe de tudo o que antes fazia deles um mero turista em Paris. Hoje apoderavam-se deste lado da cidade, dando-lhe cor, movimento e cheiro. O lugar ideal para um casal que gere um culto religioso, sádico e criminal de tráfico de mulheres, meter em acção as operações de caça.

Quem é que ia desconfiar que um simples casal, sentado na ponta do sofá, na cave dum bar, estaria a avaliar as suas próximas vítimas. Aquelas que dariam cor à sua imaginação, metendo em acção a delicadeza duma sedução?

Imagem Editada ©Dave Meier
Imagem Editada ©Dave Meier
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