Quando a praga me pregou uma partida

Ou quando me perdi a caminho de Praga…

Isto era para ser o primeiro fim de semana em viagem romanticazinha. Sim, já namoriscávamos há uns meses. Há dois oficialmente. Quando lhe pedi em namoro, não fosse ele mudar de ideias… E pronto, decidido, decidimos. Lá íamos nós para Praga. What else? Para dizer a verdade, já tínhamos planeado a coisa antes de estarmos romanticozinhos, quer dizer que íamos partilhar um momento de descoberta a dois. Algo à medida da nossa cara, já que foi assim que nos conhecemos. Mas isso é uma outra história… Então, tudo pronto e tal. Malas, bilhete, avião. Lá vão eles todos fofos em pleno Maio num frio desgramado e num céu cinzento em Paris, aterram em pleno sol na República Checa. Ah que sim, isso mesmo. Estava sol! Só para nós (óbvio). O acordo era: um orienta o voo, o outro orienta o hotel. Eu devia ter escolhido o voo. Porque é difícil perder um avião de vista… mas não. Escolhi o hotel.

Para dizer tudo passei uma semana inteirinha a comparar hotéis, lugares, cores, cadeiras e tecidos. Aquelas fotos que põem na internet têm muito a desejar… E a comparar preços. Digamos que… Estava no meu período de voluntariado europeu, o maior luxo que me podia dar era ao couchsurfing no sofá dos outros. Mas desta vez queria fazer a coisa bem feita. Uma semana a olhar cada detalhe. Quando de repente… encontro O lugar! O tecido limpo, a foto bela, a cama grande, uma banheira e a cabeça cheia de ideias… Era este o lugar ideal! Ainda por cima podia reservar pagando a primeira noite (apenas). Após várias (in)confidências disse-lhe. Encontrei O lugar. Não queria sobretudo decepcioná-lo, ainda que as minhas economias fossem mais magras que as vacas loucas. E pronto. Marquei tudo, três noites, quatro dias. O quadro ideal. Só faltava mesmo aterrar. Ele ficou tão seduzido quanto eu – pelas fotos, claro. Acabadinhos de chegar, mochila às costas, eu – claro. Ele tinha a sua mala nova, que comprou na internet como vermelho, mas ela é rosa. O par ideal. Trocámos logo de bagagens, para não haver mal-entendidos. E saímos do aeroporto. Sim, conseguimos chegar a Praga. Estivemos a dois dedos de ficar em Paris por controle de identidade – pensavam que ele me queria raptar, com certeza. Eu não tenho a carinha dos meus anos. Mas após discussão bem argumentada, deixaram-nos passar. E quando chegámos lá fomos nós, direitinhos à rua! Ao sol! A Praga, a nós! Com aquele bilhete na mão, com certeza que alguém sabia onde era o lugar… não? Não? Como assim, NÃO?

Não. O taxi nem quis saber, meteu-nos fora. E as placas não correspondiam àquelas letras. Aliás, aquilo passa-se em código, é preciso decifrar letras e números. É uma espécie de código. E o nosso não era o bom. Voltámos ao aeroporto. Então… e como é que chegamos ao nosso hotel, pergunto eu? Já que fui eu a habilidosa pesquisadora de noitadas. Esperámos comportadamente na fila, já não aguentava mais turistas. E o senhor, muito amável, no guichet, diz-me « mas isto não é em Praga » Oi? Como assim? Não está a perceber que fui eu que escolhi, durante uma semana inteira, entre várias dezenas de hotéis? É claro que é em Praga! « Não, não… é em Kutna Hóra » É o quê? Não. Isso deve ser a Amadora aqui do sítio. Qual metro? Diga-me que eu apanho o metro. « O metro não. Tem de apanhar o comboio. Mas não se preocupe, é uma vila histórica. Vai gostar, é um lugar gótico » É o quê? E isso fica onde? Eu já com as lágrimas nos olhos, desiludida da minha vida, queria esconder-me no chão. JÁ! «Então, tem de apanhar este comboio e depois aquele. Fica a duas horas daqui…» A duas quê?… Dois comboios? Para ir para o raio que me parta? Porque não? Lá vamos nós.

O melhor é não dizer muita coisa. Afinal a discussão foi só entre nós dois. O melhor é não lhe dizer nada, metê-lo no comboio e distraí-lo. Pode ser que se esqueça do tempo. Isso tudo se conseguíssemos atravessar a gare e apanhar o bom comboio no bom sentido. Sobe escada, desce escada. Poucos falam inglês. Mas são óptimos em gestual. E lá nos mandaram para a linha certa. Metidos no comboio, pareceu magia. Sentámos-nos em frente duma senhora não sei das quantas, que tinha estudado história da arte. E ela entre conversa, e nós, entre curiosidade, lá começámos a discutir. Então ela também disse que íamos adorar! Ah bom? Nós só queremos dormir. Depois voltamos. Mas não precisam de voltar, dizia ela. Estava certa que íamos cair no charme histórico do lugar.

Ela saiu umas estações depois, mas não sem nos dizer quando é que nós devíamos trocar de comboio. Contas feitas chegámos por volta das dez da noite. Completamente escuro. O lugar em volta da estação parecia perdido no tempo, alguns candeeiros iluminavam em volta… Nada de muito interessante para ver onde se mete os pés.

O quadro ideal: perdidos no meio do escuro às dez da noite, quase ninguém fala inglês, nós nem uma palavra de checo sabemos e para melhorar está tudo fechado. Ruas acima, ruas abaixo. E não há vivalma que nos indique. Será que existe mesmo um hotel? Lá cruzamos um par de velhos que passeiam o cão. Claro, não falam inglês. Mas entretanto eu aprendi a linguagem dos gestos. E lá mimiquei e mostrei o papel. E eles falaram, falaram, falaram. E eu tentava dizer que não percebia. Mas eles falaram, falaram, falaram. E pronto, eu deixei falar. Viram que eu não percebi nada. E voltámos aos gestos. Então mostraram-nos o caminho. Era mesmo preciso ser tonhinho para perder um hotel! Plantando no meio da praça principal, uma enorme fachada, que se distinguia claramente dos outros edifícios. Ele era lindo. Afinal tinha escolhido bem. Só não tinha escolhido na boa cidade. Mas o hotel era impecável!  (to be continued…)

16H_500Imagem Editada ©Ryan McGuire

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7 comentários em “Quando a praga me pregou uma partida

  1. A sério, o que eu me ri com esta aventura!! Fico à espera do próximo episódio 🙂 Tens o dom de escrever e, enquanto lemos, conseguimos imaginar-nos exactamente naquele local, ver as pessoas, as conversas… Tal como se estivéssemos lá e isso estivesse a acontecer connosco! Parabéns!
    Beijinhos*

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  2. Ahahahah
    Só tu. Aposto que na descrição do hotel dizia o nome da cidade 🙂
    Mas tenho que concordar que em Praga há sempre uma praga. A minha foi com transportes… 2 multas, uma a seguir à outra. Eu tinha os bilhetes mas não o tinha picado 🤑
    P.s: Poucos falam Inglês mas quando se trata cobrar multas, expressam-se tão bem.

    Curtido por 1 pessoa

  3. Pingback: Battistta

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