Viajar entre mundos


Viajar tornou-se quase uma moda, como escrever, fotografar ou amar cozinhar. De todos tenho algum pouco de vontade, mas cada um em medidas diferentes. Quando se diz que alguém tem aquele bicho viajante que trabalha por dentro, não sei exactamente ao que é que se refere. Até porque é algo que já ouvi, mas não é a viagem que me atraí é o sair e o voltar. Não é o durante, até porque isso causa sempre arrepios na barriga.

Tal como o tempo, viajar faz parte daqueles momentos em que é necessário alguma organização, mesmo que amanhã decida calçar as botas e fazer-me à estrada, nada é possível exactamente se me for embora descalça. Então para qualquer coisa é preciso um mínimo de organização. Ora é algo estranho para quem se encontra no meio de bagunças -como eu.

A maior viagem que ainda não terminei foi esta de 12 meses em serviço de voluntariado europeu (podem ler aqui), que se transformou a exactamente meio caminho. Dando lugar a vários ‘jobs’ e dois anos naquela École que tanto me fazia questionar durante o tempo que a olhava de fora. É uma viagem que se atracou nos encantos de Paris, mas que porém não sucumbiu aos charmantes parisienses. Por isso quero ainda continuar a viajar. Noutros lugares.

Viajei sempre desde que me lembro, sobretudo desde que os outros se lembram. Cresci por isso a ouvir que desde cedo lá ia eu com a minha avó rumo aos arredores da capital. Isso já era uma enorme viagem no tamanho da minha altura. Depois viajava nas novelas brasileiras que me acompanhavam durante o serão. Davam novas cores e sensações aos meus sonhos, como seria aquele lugar, aquelas pessoas. Mais tarde embarcava-me nos livros emprestados, descobria a América Latina pelos seus autores. E como me marcaram, Gabriel García Marquez e Laura Esquível… São suspiros profundos na memória que já tarda. Até que quando cresci, durante os dez anos que passaram, viajei sozinha e com os amigos, com os familiares. Viajei através das terras e dos homens, mas também através da realidade. Na mesma medida que os meus olhos quiseram embriagar-se e descobrir algo mais…

Não foram os países, nem as cidades que colecionei. Foram mesmo várias memórias que tenho medo, perderei, durante as próximas viagens que poderei fazer. Se acumulasse a quantidade seria mais infeliz pelo número do que pelo recorte que posso fazer na minha mente. Viajei também através dos outros, nos encontros que fizemos, pela língua, pela cidade, pela descoberta – dos outros.

Estou num momento particular em que preciso de um novo plano para desta vez me assegurar a  mim mesma de que me tornei capaz e responsável da minha confusão. Para que tenha no horizonte um novo ponto de orientação. Como o norte para uns e como o sul para mim. A vida francesa pode tornar-se tão tentadora como prisioneira, capaz de me fazer guardar as botas e deixar de caminhar para um outro lugar.

Delicio-me portanto nas modas das viagens, num mundo partilhado e sempre conectado. Sou a viajante voyeur sentada atrás do meu ecrã, a escritora frustrada que nunca escreveu, a fotógrafa desestruturada que nem sabe qual é a orientação da luz e claro! a cozinheira do top estúdio no qual saltam malabarismos entre 2 metros quadrados.

©scotsann

Imagem Editada ©scotsann
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